Futebol Nacional

TRAMWAYS

Dinheiro, feito imbatível e vida curta: a história do Tramways mudou o futebol de Pernambuco

Há 80 anos, time criado por empresa de Londres iniciava bicampeonato invicto e liderava profissionalização de jogadores no estado com pagamento de salário

postado em 22/10/2016 16:00 / atualizado em 21/10/2016 15:20

Arquivo/Diario de Pernambuco
Em 22 de outubro de 1936, há exatos 80 anos, o Tramways pisou no campo da Jaqueira para fazer história como nunca foi feito no futebol pernambucano. Diante do Sport, o Elétrico, como também era chamado, construiu o placar de 3 a 2 e se sagrou campeão estadual invicto. A conquista, além de representar uma quebra no que já começava a ser a hegemonia do atual Trio de Ferro, provocou mudanças significativas na estrutura dos campeonatos locais. O time encabeçou a profissionalização dos atletas, com pagamentos de salários. Começou a substituir o conceito do jogo pelo amor à camisa, desenhando uma trajetória meteórica e vitoriosa no estado, alcançando, no certame seguinte, um bicampeonato invicto. Feito nunca igualado no estado.

Arquivo/Diario de Pernambuco
A conquista do Tramways, em 1936, representou a última sem o pagamento aberto de dinheiro aos jogadores. Mas, antes mesmo da mudança, a equipe já provocava discussões acaloradas sobre o tema. A inscrição do time tricolor aconteceu em 9 de março de 1934, substituindo a equipe antes chamada de Tuiuti Força Esporte Clube. A decisão foi anunciada em publicação no Diario de Pernambuco e era fruto do investimento pesado da empresa The Pernambuco Tramways & Power Company Limited, de Londres.

A companhia veio ao Recife para instalar e executar o serviço de bondes elétricos. Posteriormente, também chegou a explorar a distribuição da energia elétrica na capital pernambucana. Convivia com reclamações da população nos periódicos sobre os serviços. Até que o time também ganhou espaço nas páginas dos jornais em uma tática que é usada por muitas empresas que patrocinam o futebol até hoje.

Consolidado rapidamente nos campos com o caixa recheado de dinheiro, o clube protagonizou um desentendimento com o Diario de Pernambuco, em 23 de novembro do 1934, em virtude da sua política. Uma reportagem revelou a tentativa de contratação de Alfredinho, do Flamengo, e não agradou aos dirigentes do time.  

Em 1934, na primeira participação no Campeonato Pernambucano, o Tramways disputou a Série Branca, considerada a divisão de acesso. Foi campeão de maneira invicta. É claro que, nesta campanha, o elenco já era abastecido de jogadores com salários. Uma tática que, posteriormente, já passava a ser defendida pela imprensa diante da sua difusão no país. Em São Paulo, por exemplo, o primeiro jogador profissional foi registrado em 1933.

“O que o Tramways fez e está fazendo é o que tem feito e continuam a fazer os diversos clubes filiados. O avanço aos bons jogadores e a sua permanência, às vezes, às despesas dos clubes num falso amadorismo”, publicou o Diario. “O que é muito pior, ao nosso ver, é negar-se a existência do profissionalismo e no entanto consentem alguns clubes que vários dos seus jogadores sejam verdadeiros parasitas dos seus cofres, não trabalhando, passando os dias e noites pelas portas de bilhares e cafés, sem ao menos simularem empregados de qualquer empresa da firma comercial camarada”, acrescentou.

A análise representava um fato consumado no meio esportivo. Na época, o Tramways trouxe de outros estados peças como Domingos, Salvio e Bermudes - os dois últimos, já em 1935, foram dispensados do clube após serem presos por desordem e, em seguida, acabaram reintegrados sendo consagrados como destaques. Flamengo-PE, Sport, América e Santa Cruz também foram apontados como protagonistas do mesmo ato. A tática era dar um emprego ao atleta em que ele sequer precisava comparecer e, assim, garantir a condição de “amador”.
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Em uma dessas transferências polêmicas, aliás, o Tramways quase pôs a perder a chance de conquistar o primeiro título na elite, em 1935, na primeira participação entre os principais clubes. O Sport reclamou, formalmente, da entrada do jogador João Pereira da Costa, conhecido como Chinez, na vaga de Bermudes, no duelo realizado entre os clubes em 3 de dezembro daquele ano.

O Rubro-negro questionou o processo em que foi feita a inscrição do atleta, que estava no Flamengo-PE. O protesto foi aceito pelo Conselho de Julgamentos da Federação Pernambucana de Desportos por não ter seguido o regulamento. Na decisão, foi anulado apenas um tempo da partida entre as equipes.

Arquivo/Diario de Pernambuco
O Elétrico havia vencido o jogo por 4 a 2. Com um novo encontro, marcado para o dia 28 de janeiro do ano seguinte, o time alviazulino venceu por 3 a 1 e ficou empatado com o Santa Cruz em pontos. A decisão partiu para um confronto extra. No primeiro, o Tramways empatou em 3 a 3 no tempo normal e vencia por 1 a 0 na prorrogação quando a partida foi encerrada por falta de iluminação.

Em seguida, o Tricolor do Arruda entrou com um recurso e requisitou que o duelo fosse jogado até o fim. No dia 15 de fevereiro, um mês e 13 dias depois, o confronto foi reiniciado. Nele, o Tricolor conseguiu empatar em 4 a 4 e provocar mais outro duelo. Por fim, o Santa Cruz venceu de 5 a 2. Adiou, dessa maneira, por um ano a façanha do Tramways. Algo que o tempo mostrou ser inevitável.
    
Após ascender à elite de maneira invicta e quase levar o título em 1935, o Tramways caminhou com seu DNA de vencedor. Em 1936 e 1937, a equipe conquistou o Estadual de maneira consecutiva e invicta. Um feito inédito no futebol pernambucano até hoje.

Primeira taça vem com polêmica
A primeira conquista do Tramways na elite, em 1936, foi no último ano do futebol sendo tratado ainda como amador em Pernambuco. Mas, como se sabe, os times já costumavam se mover financeiramente nos vestiários. O livro “85 anos de bola rolando”, de Givanildo Alves, relata que o clube do bairro da Torre era o mais ativo. “Ninguém empregou tanto jogador quanto o Tramways”, diz a publicação. O Elétrico, na realidade, não se limitou a gastar com atletas. Também arrendou ao América o campo da Jaqueira, que ficava dentro do atual parque público, na zona norte da capital, e instalou iluminação para disputar jogos noturnos ainda no ano anterior ao primeiro título. Além disso, contratou o técnico Joaquim Loureiro, responsável por fazer uma equipe muito forte.

Dentro desse cenário, o Diario de Pernambuco, que antes denunciara o interesse em pagar salários a atletas, publicou mais um artigo defendendo uma mudança imediata no futebol local. “Se Recife fechar as portas a esse surto progressista que se vislumbra, terá que ficar manietado a esse falso amadorismo porque, se alguns clubes têm, em seus quadros, verdadeiros amadores, que se sacrificam pela defesa de seus pavilhões, outros reclamam para si essa classificação de amadorismo, mas em seus quadros ostentam profissionais de todos os preços, alguns até sem qualidade para tal”, observou o cronista Prudencio de Lemos.

Em meio à polêmica, o Tramways atropelou em campo. O Campeonato Pernambucano de 1936 foi disputado em dois turnos. A equipe participou de 13 partidas. Venceu 11 e empatou outras duas, marcando 69 gols. Antes mesmo de ter um jogo final, conquistou a competição. Os clubes, em comum acordo com a Federação  Pernambucana de Desportos, decidiram dar o Estadual por encerrado no dia 24 de outubro. Dessa maneira, a pontuação da rodada disputada dois dias antes garantiu o título no campeonato que ainda tinha Sport, Náutico, Santa Cruz, América, Flamengo-PE, Torre, Great Western e Íris. 

Arquivo/Diario de Pernambuco

Raio cai duas vezes no mesmo time
Mais uma vez, o ineditismo se fez presente na terceira campanha do Tramways na elite do Campeonato Pernambucano. O rótulo de favorito não pesou para o Esquadrão Elétrico. Pelo contrário. Veio mais um atropelo com 14 vitórias, um empate e 64 gols a favor. O time, mais uma vez, nem precisou disputar o certame até o fim. Com os pontos já garantidos, fez pressão para não encarar o Central na última rodada e correr o risco de perder a invencibilidade. Façanhas que lapidaram a imagem do primeiro bicampeão pernambucano invicto deixando para trás Sport, Náutico, Santa Cruz, América, Flamengo-PE, Íris, Central e Great Western em uma disputa que mudou a estrutura do futebol pernambucano para sempre.

Em 1937, pela primeira vez, um jogador foi registrado como profissional na então Federação Pernambucana de Desportos. Apesar de ser um dos mais endinheirados, não foi o Tramways o protagonista da ação. Coube ao Central inscrever o zagueiro Luiz Zago, oriundo do futebol mineiro. O futebol como profissão também criou a figura do árbitro pago em Pernambuco. Surgiram, assim, novos personagens do futebol local como Argemiro Félix de Sena, que ficou conhecido como Sherlock.

As mudanças estruturais, contudo, não alteraram o desempenho do Tramways, que, outra vez, não precisou esperar o campeonato chegar ao fim para se sagrar como campeão. “Íris e Central, seus últimos dois adversários, preferiram não ir a campo, fazendo entrega dos pontos, porque não viam possibilidade de vitória e o regulamento permitia esse expediente”, explica o livro 85 Anos de Bola Rolando, de Givanildo Alves.

Esse grupo vencedor, por sinal, já era composto de vários atletas assalariados, mas que também mantinha uma dupla função. “No time da companhia inglesa, muitos atletas, mesmo com o profissionalismo já regulamentado, não quiseram firmar contrato, preferindo permanecer no emprego”, narra o livro História dos Campeonatos, de José Maria Ferreira.

Arquivo/Diario de Pernambuco

Fim melancólico

O Tramways construiu uma trajetória extremamente vitoriosa no futebol pernambucano. Em quatro anos, acumulou três títulos estaduais de maneira invicta. Em 1934, foi campeão da segunda divisão. Em 1935, foi vice na elite. Nas duas disputas seguintes, ficou no primeiro lugar com folga. O curioso, contudo, é que a saída de cena dos campos também foi surpreendente. Melancólica, na verdade. Após sofrer uma goleada de 6 a 1 do Sport, o Elétrico abandonou o Estadual no meio da disputa e nunca mais voltou a jogá-lo apenas sete temporadas após seu surgimento.

No dia 31 de agosto de 1941, já ocupando as últimas posições da tabela, o Tramways entrou em campo para encarar o Leão da Ilha em um “ambiente frio e sem interesse”, como relatou o Diario de Pernambuco dois dias depois. O Elétrico chegou a equilibrar os primeiros 30 minutos da partida, mas depois cedeu. A etapa inicial já havia terminado em 4 a 1 para os rubro-negros. Em seguida, a equipe deixou a competição junto com o Flamengo-PE. Faltavam ainda quatro partidas para time alviazulino duelar.

Depois da desistência, o Tramways realizou outros jogos e parecia seguir com o mesmo prestígio de anos anteriores. O time, por exemplo, foi convidado para realizar a inauguração do estádio Presidente Vargas, na capital do Ceará. O resultado, no entanto, apontou para uma derrota de 2 a 1 para o Ferroviário. Em seguida, enfrentou o Tramways do Ceará e venceu por 7 a 2, no dia 26 de setembro de 1941. Já no dia 1 de outubro, foi derrotado por 2 a 1 pelo Ceará.

Arquivo/Diario de Pernambuco

Em seguida, o Elétrico inverteu a sua história. Após ajudar a profissionalizar o futebol, passou a disputar apenas partidas contra times amadores e foi abraçado fortemente pela crise que estancou o futebol pernambucano em 1941. Foram comuns queixas à Federação de atletas que não recebiam os salários. Em reportagem publicada no dia 24 de dezembro do mesmo ano, o Diario relata que, além do Tramways, Santa Cruz e América também foram atingidos pela falta de verba. Esses, contudo, ainda sobrevivem 80 anos depois. Já o Elétrico virou história. A saída oficial aconteceu em 1943.

“Não podemos deixar de mencionar, neste registro, o afastamento do Tramways nas competições de futebol. Era este o único esporte em que o clube em apreço estava inscrito. Todos os outros já tinha abandonado (jogava basquete e vôlei, por exemplo). E com esse afastamento, perde a mentora o concurso eficiente de um clube que foi sempre um modelo de disciplina e de correção”,  publicou o Diario, no dia 12 de março de 1943.

Reprodução
Ficha
Nome: Tramways Sport Club
Atividade: de 1934 a 1943
Títulos: Campeonato Pernambucano (1936 e 1937)
Cores: vermelho, branco e azul
Uniforme clássico: camisa branca, duas listras transversais, de cor azul, e escudo centralizado com iniciais TSC
Sedes: concentração dos jogadores era na rua do Futuro, 479; sede social ficava na praça Barão de Lucena, nº 51, 1º andar, Recife