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CORRIDA

Liberdade que veio das ruas: correndo de muletas, Juju ressignificou própria história

O hábito de correr transformou a vida de Deyvison, que há cinco anos amputou a perna após sofrer acidente, e vai ajudar a mudar a vida de outros

postado em 05/11/2018 11:38 / atualizado em 05/11/2018 11:38

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Camila Pifano/Esp.DP
“Eu era um pirralha virado, me chamavam de Juca bala na infância”. Esta é a forma como  Deyvison Anselmo Gonçalves, de 33 anos, conta sua história. E ela pouco mudou desde então. Hoje ele ganha as ruas correndo, assim como fazia quando criança. Paixão que foi gestada durante toda a vida mesmo sem perceber e somente agora, em 2018, ela se tornou, efetivamente, uma prática diária. E tudo isso foi intermediado por um acidente: Deyvison, em 2013, teve que amputar a perna direita. Um acontecimento que, para ele, longe de ter sido ruim, deu luz aos caminhos que hoje percorre, porque há oito meses que Juju, como é conhecido pelos amigos, corre para superar suas limitações e mudar a vida dos outros. No próximo dia 18, ele vai participar da DP Run, corrida em comemoração ao aniversário de 193 anos do Diário de Pernambuco. 

Mas engana-se quem pensa que a fortaleza construída por Juju permaneceu intacta, inabalável. Antes do brilho em levantar as inúmeras medalhas que tem, colecionar pódios e marcas pessoais, a dor pelo acidente de cinco anos atrás - quando um carro atropelou a moto em que dirigia - o fez pensar em recuar várias vezes. “Eu fiquei um mês e meio internado no Hospital e foi muito duro pra mim. Eu estava me sentindo perdido, cogitei suicídio duas vezes. Só depois de um tempo consegui enxergar os caminhos que tive que passar, o propósito. Ali, na verdade, era o início de uma nova fase na minha vida.” 

O resgate

E foi neste momento de lampejo que a corrida juntou-se a ele, definitivamente, com dia e lugar marcados. “Sete de janeiro, em Olinda”, lembra Juju. A data e o lugar da primeira vez que correu de muletas não saem da memória. O porquê de ter estado ali, segundo ele, aconteceu por meio de uma imagem recebida de um amigo, que enviou uma foto de um homem correndo de muletas em Recife e instigou Deyvison a fazer o mesmo.

“Se ele consegue, eu também consigo’’ foi o primeiro pensamento, depois da surpresa pela imagem. Mas, apesar da confiança ter se mostrado forte no momento, na cabeça de Juju toda a situação não passava de uma brincadeira, até que o próprio amigo conseguiu inscrevê-lo para correr. “Quando vi a foto, eu fui brincar com ele perguntando onde ia acontecer a próxima corrida e ele acabou mandando meu áudio para o organizador dessa corrida que ia acontecer em Olinda. Aí, o homem disse que eu poderia correr de graça”, afirmou. 
Camila Pifano/Esp.DP

Abraça mesmo

Na hora da largada, o susto. Por acaso do destino, o mesmo homem que tinha visto correndo na imagem mostrada pelo amigo estava lá, mas não da forma esperada. O corredor, na verdade, tinha as duas pernas, mas usava muletas para fazer o exercício porque uma perna era menor que a outra. “Quando eu vi, pensei em desistir na hora. Mas, eu já estava na largada. Aí eu pensei: ‘abraça mesmo e vai embora. A corrida era cinco quilômetros, passei duas horas e meia para completar o percurso e pensei em parar várias vezes no meio do caminho, porque não suportava de exaustão. Mas eu não podia desistir de mim, porque coloquei na cabeça que isso melhoraria minha vida”, refletiu. 
  
Do pontapé inicial despretensiosamente em janeiro, já são nove meses em que Deyvison respira a corrida, acordando cedo de segunda a sexta-feira para treinar na pista de atletismo do Parque Santos Dumont, em Boa Viagem. E ele não para por aí, quer alçar voos maiores. “Meu objetivo é poder resgatar pessoas com minha história de vida, ser professor de educação física e compartilhar meu conhecimento com elas, ter a ajuda que eu não tive. Além disso, tenho um objetivo muito forte em participar das Paraolimpíadas futuramente”, afirmou. 

Juju cruzou muitas linhas de chegada e pretende continuar percorrendo esse caminho para o resto da vida. Afinal, ganhar as ruas correndo, para ele, é sinônimo de liberdade e tem gosto de infância.