Futebol Nacional

OPINIÃO

Coluna de Fred Figueiroa: 'cenários e problemas próprios' do pior ano do futebol local

Colunista do Superesportes analisa o momento delicado e a particularidades da temporada de Náutico, Santa Cruz e Sport

postado em 07/12/2018 17:40 / atualizado em 07/12/2018 19:10

Julio Jacobina/DP/D.A Press; Ricardo Fernandes/DP
O ano desastroso para o futebol de Pernambuco praticamente nos empurra para a análise superficial de que há um problema maior afetando diretamente o desempenho dos clubes do estado. E, por mais que tenha uma série de críticas ao tipo de conduta e ao trabalho realizado pelo presidente da Federação Pernambucana de Futebol, Evandro Carvalho, considero que a interferência direta da FPF na gestão e no desempenho dos times dentro de campo não pode jamais ser colocada como um fator determinante para os resultados negativos. Sobretudo para os principais clubes. Nos menores, que fracassaram na Série D, até se consegue identificar uma relação mais direta dos problemas estruturais do futebol no estado. Repito: Este argumento inicial está longe de ser uma defesa da federação. O ponto fundamental é deixar claro que os fatores determinantes para o pior ano da história do futebol de Pernambuco estão nos próprios clubes. E sem um padrão comum entre eles, inclusive. São cenários e problemas próprios. 

O melhor exemplo

Talvez a forma mais simples de defender esta visão seja analisar o ano do Náutico, que fecha com todos os salários regulares em dia e apenas o décimo terceiro aberto. Qual a última vez que isso aconteceu? Difícil lembrar. Ou seja: o clube alvirrubro conseguiu gerar receitas suficientes para executar seu planejamento financeiro. Claro que, este ano, o Náutico viveu uma redução orçamentária significativa, sobretudo nos primeiros quatro meses, com uma folha mensal abaixo de R$ 300 mil. Claro que houve ajuda de grupos de torcedores que, por exemplo, arcaram com o investimento em Ortigoza. E, fundamentalmente, a boa campanha na Copa do Brasil injetou quase R$ 5 milhões. Decisivos. Tudo isso está na conta e não muda a essência do trabalho correto do presidente Edno Melo. O ano só não foi perfeito pelo momento de desmobilização entre o título estadual e o início da Série C. Ali o trabalho de Roberto Fernandes saiu do eixo e mesmo com a substituição do treinador tendo funcionado, não houve a evolução e amadurecimento necessário da equipe para atingir um padrão de atuação “acima da margem de erro”.  E se você não atinge este estágio na terceira divisão, você fica sob risco do imprevisível em um único confronto eliminatório. 

O que mudou entre 2015 e 2018?

Ou seja, o ano desastroso do futebol de Pernambuco nas competições nacionais não se reflete na análise interna do Náutico. O que, ao menos na minha leitura, deixa claro que os fatores realmente determinantes para o desempenho são particulares de cada clube. A realidade local, o pouco interesse despertado pelo Estadual, a cota baixa de TV, o nível técnico muito fraco dos clubes do interior e os gramados terríveis longe do Recife exercem alguma interferência, mas não sentenciam os destinos. Afinal, em 2015, o Sport foi sexto lugar na Série A e o Santa campeão do Nordeste e vice-campeão da Série B e - convenhamos - o cenário estrutural e o trabalho efetivo da FPF era basicamente o mesmo de 2018. Aliás, o que aconteceu nos anos seguintes do Sport e do Santa Cruz facilmente explicam a raiz do colapso de hoje. 

Onde o Santa se perdeu

O Santa Cruz de 2016 representa tudo o que não se deve fazer na gestão de um clube. O maior orçamento da história do clube foi consumido “como se não houvesse amanhã” e sequer foi suficiente para fechar aquele ano. Mas havia. E daquela grande temporada de 2015 não restou nada. O Tricolor vive um dos momentos mais difíceis da sua história, mergulhado em uma realidade financeira que não condiz com sua dimensão e, ao contrários de crises anteriores, com a torcida distante. Fria. Foi assim em quase todos os jogos do ano e, depois de quatro meses sem futebol, não será fácil resgatar a mobilização perdida. Até porque a gestão de Constantino Júnior trabalha de forma responsável para tentar corrigir o rumo da história. O caminho responsável é também mais longo. Hoje não há diferença efetiva no perfil de formação de elenco do Santa para clubes como Botafogo/PB ou Treze. Enquanto isso, o América/MG que subiu ao lado do Santa em 2015 e foi rebaixado junto em 2016 (e já subiu e caiu de novo), hoje está a anos-luz do Tricolor em termos de poder de investimento. O símbolo da diferença está na gestão responsável da receita em 2016. Apenas o símbolo. Porque a raiz já está ramificada por toda a estrutura.

Independente

Com orçamentos declarados acima de R$ 100 milhões por ano, a implosão do Sport é difícil de ser analisada sem acesso direto às contas do clube.  Mas, no cerne do texto de hoje, a quantidade de dinheiro que circula na Ilha já deixa claro sua independência da realidade local. Não existe “fator” ou “elo” Pernambuco para justificar o que aconteceu nos últimos dois (ou quatro) anos. Seria até uma forma de amenizar os erros cometidos.