RIO-2016
Relíquias Olímpicas: a insistência de Ana Cláudia
Pernambucana participou da Olimpíada de Seul-1988, com a seleção de vôlei
postado em 04/07/2016 15:39 / atualizado em 04/07/2016 15:49
Alexandre Barbosa /Diario de Pernambuco , Ana Paula Santos /Diario de Pernambuco

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Promessa cumprida por Ana Cláudia, que só voltou ao Recife, definitivamente, 20 anos depois. “Era o que eu sempre quis. Sempre fui meio cigana. Tanto que nunca parei muito tempo num lugar”, conta a ex-jogadora, que, nesse período, morou em várias cidades do Brasil e até fora do país. Dedicou a vida ao vôlei, esporte que começou a praticar na adolescência. Sofreu com as dores das lesões e decepções, sorriu com os títulos e alegrias proporcionadas pelo esporte, construiu amizades duradouras. Um momento em especial marca essa trajetória. Segundo ela, o auge, aos 26 anos. Defendeu o Brasil na Olimpíada de Seul-1988.
Ana Cláudia fez parte de uma geração do vôlei feminino brasileiro que surgiu na metade da década de 1980. Após deixar o Recife pela segunda vez, defendeu as principais equipes do Brasil. Fez parte das seleções brasileiras de base e chegou à adulta. Mas não foi fácil. E por um detalhe inusitado: o tamanho dos seus pés. Com 1,79m, ela calçava 36. Na visão da comissão técnica da seleção na época, essa “incompatibilidade” inviabilizava a convocação. A pernambucana ficou surpresa quando soube do motivo.
“Eu treinava, treinava, o pessoal me elogiava, dizia que eu era a revelação da seleção juvenil, mas quando chegava na hora da convocação final para a (seleção) adulta, me cortavam. A alegação era que eu tinha o pé pequeno. ‘Vai que você torce o pé? A gente vai ficar com menos uma jogadora!’, era o que diziam”, lembra Ana Cláudia, que hoje ri da situação. “Então, até eu me firmar na seleção, foi muito complicado. E até um pouco traumático por conta disso, mas eu sempre fui muito insistente”.
A vaga veio nas quadras
Com a seleção brasileira, Ana Cláudia foi ícone de uma geração ao lado de nomes como Ana Moser, Vera Mossa, Isabel e Ana Richa. Foi um grupo que fez história ao quebrar paradigmas com seus resultados. Em 1986, a equipe foi quinta colocada no Mundial de Vôlei. Um ano depois, no Pan de Indianápolis, ficou na quarta colocação. Em 1988, o resultado mais expressivo. O Brasil foi vice-campeão do torneio Pré-Olímpico, perdendo para a Rússia na final. Com esse resultado, pela primeira vez, o vôlei feminino iria aos Jogos Olímpicos com a vaga conquistada dentro de quadra. “Antes, só íamos por convite. Agora foi diferente, por isso foi histórico.”
“A participação na Olimpíada poderia ter sido melhor”, diz em tom de lamento Ana Cláudia. O Brasil não conseguiu repetir as boas atuações, além de ter caído num grupo com seleções muito fortes, como o Peru que, com uma geração histórica, foi medalhista de prata, e a China, que ficou com o bronze. A seleção ganhou apenas um jogo, diante da Coreia do Sul, na disputa de 5º a 8º lugar. Terminou na sexta colocação.
Ficou, na memória, a lembrança de algo que Ana Cláudia mal consegue descrever. “Olimpíada é uma experiência fantástica, fora do comum. Não tem como explicar. É muita emoção. Você passa muitos anos se dedicando, treinando. Tem hora que o físico e a cabeça não aguentam”, conta a ex-jogadora. “É tudo um processo. Olimpíada é o máximo que um atleta pode sonhar em chegar. Lá estão os melhores do mundo de todos os esportes. É fora do comum.”
Amizade para a vida toda
Há duas semanas, Ana Cláudia esteve presente em uma homenagem da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) às jogadoras que representaram o Brasil com a seleção feminina de vôlei. A pernambucana participou, aproveitando para rever as amigas de longa data. A amizade construída em quadra perdurou. Até hoje, as ex-atletas se comunicam e se veem quando é possível.
“Foi um grupo que se formou ali por 1985. Muitas meninas boas. A gente passava praticamente nove meses juntas, convivendo. Então, era inevitável essa aproximação”, conta Ana Cláudia. “Agora, a gente se viu nesse evento da CBV que reuniu as ex-jogadoras. Foi uma emoção muito grande. Com algumas, o contato é maior, mas outras não via há uns 20 anos. O pessoal dizia: ‘Vai chorar, vai chorar’. E não teve jeito.”
Ana Cláudia vê sua geração como o início de uma era vitoriosa para o Brasil. Ela se considera “cobaia” de um tipo de trabalho que, hoje, é bastante comum, focado na preparação física. “Foi uma geração tipo cobaia. A gente trabalhava muito o físico. O pessoal perguntava: ‘Vocês são corredoras ou jogadoras de voleibol?’”, diz a ex-atleta, que viveu situações inusitadas durante os treinos físicos. “A gente nadava muito. Mas eu não sabia, e não sei até hoje, nadar. Então eu ficava ali, na piscina, mas não saía do lugar. Eu era a única que podia usar o pé de pato.”
Disputa
Algo que ela vê de diferente da sua para a atual geração é a competitividade por uma vaga no time. “Quando você chega na seleção, não pode dar mole. Se não jogasse hoje, esqueça. Amanhã, para voltar ao time, tinha que treinar dez vezes melhor. Eu era titular, mas sabia que tinha alguém atrás de mim. Hoje em dia não tem mais isso”, compara Ana Cláudia.