Santa Cruz

TRISTEZA

A morte após a morte

Joelma Valdevino fechava os olhos e pedia o impossível: o filho de volta. A cada vez que abria, morria um pouco

BERNARDO DANTAS/ DP/D.A PRESS
Amparada por familiares e amigos, Joelma chegou a desmaiar durante o velório do filho Joelma Valdevino fechou os olhos. "Joelma, abra os olhos. Quando você abrir os olhos, nós vamos levar você novamente para perto dele", pediu uma amiga. O despertar que a mãe desejava, naquele momento, era outro. Queria deixar o Cemitério de Santo Amaro na companhia do filho mais velho, Paulo Ricardo Gomes da Silva, de 26 anos. Por isso, passou a suplicar a todo momento que ele levantasse do caixão. "Levanta, filho! Sai desse lugar. Gente, por que fizeram isso com ele e desta forma? Essa dor não vai passar nunca. Ele não vai voltar", desabou ao abrir os olhos. Antes de fechar os olhos, Joelma tentou, em vão, acordar Paulinho. Sentada no primeiro banco da principal capela do cemitério, precisou ser amparada e confortada inúmeras vezes. Ela não via e nem ouvia ninguém. Em transe, só queria saber de Paulinho. Seu filho. Refeita do primeiro de tantos outros desmaios, a diarista retornou para dentro da capela. Queria ela contemplar e beijar o rosto do filho mais uma vez. Joelma morreu duas vezes ontem. A primeira vez, quando fecharam o caixão. A imagem de Paulinho sumindo do alcance do seu olhar foi demais. O ápice da dor e do desespero. No coração, as imagens da boa relação que manteve com o filho vão perdurar para sempre e por isso a despedida inesperada doía ardentemente."Ai, meu Deus, que dor. Como é difícil esse dia, meu Pai", declarava ela. Joelma foi praticamente carregada durante o cortejo até o sepultamento. Os olhos mais uma vez fechados, tentavam ver alguma explicação para a ruptura no convívio com o primogênito. Mas a estupidez não tem justificativa, Joelma. Paulinho simplesmente foi a um jogo de futebol e não mais voltou. "Eu sei que você não gostaria de me ver assim, meu filho. Mas não tenho como me comportar de outro jeito. Vou te amar sempre, eternamente", falava, como se Paulo pudesse ouvir. Desabafo sofrido. Quem estava no local, não suportou. Entre desvarios e frases desconexas, a mãe morreu pela segunda vez. Ontem, pois já havia morrido outras tantas desde a sexta-feira à noite. No começo da tarde de domingo, sepultou as suas alegrias, sonhos e um pedaço de si. "Ó, meu filho, vamos para casa. Tanta gente aqui e ninguém tira ele dali. O seu lugar não é aí. Pega ele pra mim, minha gente. Tu era tão bom, especial e não merecia isso. Ainda não acredito. Gente, espera por mim que vou ali pegar meu filho", suplicava a mãe, estendendo os braços para chegar perto do caixão do filho. Joelma só queria levá-lo para casa. A ajuda de alguém. E ninguém podia ajudá-la.